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Blog
do João Felix
Contos,
poesias e outros temas
Contato:
joao_gues@hotmail.com
João Felix - Reriutaba,
Ce |
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23/10/2011 |
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FUTEBOL NO
INTERIOR |
Domingo, fim de semana
Faça chuva ou faça sol
Rola solto o futebol
Temperado com uma canaFazem uma festa bacana
Vão jogar noutro lugar
Um vai um carro fretar
Tá completa a brincadeira
Atletas lustram a chuteira
Se preparam pra jogar.
Sai lotado um caminhão
De atletas destemidos
Felizes e convencidos
Que seu time é campeão
E pela estrada de chão
Vão cobertos de poeira Juntos naquela zoeira Alguém brinca, faz
piada E na bagunça animadaEsquecem a segunda-feira.
Um xinga, outro reclama O caminhão sai rodandoDe vez em quando
pulandoÀs vezes atola na lamaQuando o motorista chama
Alguém pra desatolarNinguém sai para ajudar
Fica aquela empurradeira
Até que a cabroeira
Desce para trabalhar.
Assim que a bola roladá-se início à gritadeira“Manel sapeca a
chuteira!”
“Raimundão entra de sola!”
“Vamos, Chico, desenrola!”
se põe o técnico a gritar.“Zeca, volta pra marcar!”
grita o goleiro assustado
Pontapé pra todo lado
E começam a reclamar.
O campo não é marcado
Não tem área, não tem linha
O juiz sem bandeirinha
Fica todo aperriado
É um bafafá danado
Não vê quando a bola sai
Outro grita: “Lá se vai.
Começou a roubalheira!”
Sentada na ribanceira
A torcida se distrai.
Não existe arquibancada
Para o torcedor sentar
Pois não precisa pagar
O bilhete da entrada
Mas a galera animada
Quer vê seu time ganhar
Então começa a gritar
“Bola pra frente, negrada!
Vamos dar de goleada!
Hoje eles vão se lascar!”
De repente Mané Bento
Faz um gol, vibra feliz
Do meio do campo o juiz
Já marcou impedimento
Irritado, Pé de Vento
Chama o juiz de ladrão
Depressa leva um cartão
É expulso e sai vaiado
Sai de campo revoltado
E cuspindo palavrão.
A bola volta a rolar
Manel, de cabeça quente,
Sai da zaga, vai pra frente
Querendo o jogo empatar
Então começa a driblar
E na área é derrubado
O juiz do outro lado
Diz: “Não houve nada, não!
Ainda aplica um cartão
E manda ficar calado.
Os dois times vão jogando
Time da casa vencendo
A chibata vai comendo
E o juiz só roubando
A torcida vai gritando:
“Bota pra lascar, negrada,
Vamos dar de goleada
Zé Catita, mete a sola!
Se a gente perder na bola
Vamos ganhar na porrada!”
O clima do jogo esquenta
Outro diz: “Zé, abufela.
Até o pescoço é canela
Entra duro, arrebenta.
Só joga aqui quem aguenta!
Lasca este diabo no chão.”
Um jogador, com a mão,
Marca, aumentando o placar
Depressa abre um fuá
E se acaba em confusão.
João Félix |
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29/08/2011 |
Conselhos de
um avô analfabeto ao seu neto
Perdoe-me a simplicidade
De um homem sem estudo
Que desde minha mocidade
Tenho feito de “um tudo”
Trabalhei muito na roça
Em minha humilde palhoça
Só vivi de trabalhar
Foi pouco a oportunidade
Menor foi minha vontade
Que tive para estudar.
A vida foi trabalhosa
E dura com seu avô
Mas tudo enquanto que fiz
Foi com carinho e amor
Mesmo sem ter estudado
Eu sempre tive o cuidado
De a todos respeitar
Dando boa-noite ou bom-dia
Pra todo canto que eu ia
Sabia sair e entrar.
Se eu tivesse estudado
Hoje outro homem eu seria
(Pois sendo bem informado
Um homem tem mais valia.)
Eu teria outra visão
E a minha opinião
Seria muito mais segura
Não precisa ser doutor
Mas se quiser ter valor
Adquira mais cultura.
Por faltar conhecimento
Muitas vezes fui enganado
É triste, e muito lamento
Por meu humilde passado.
Muitas vezes até chorei
Pelas coisas que passei
Por não ler nem escrever
Então lhe digo, menino,
Não queira que seu destino
Depois lhe faça sofrer.
Hoje muito me arrependo
De certas coisas que fiz
São coisas que agora vendo
Sei como fui infeliz
Quantas vezes aqui chegou
Um político e me pagou
Pra mode nele eu votar
Me dava uma micharia
Eu recebia com alegria
Só faltava lhe beijar.
Mas eu não tinha noção
Do que erro que cometia
Do fundo do coração
Nem sabia o que fazia.
Achava tudo perfeito
E quando vinha outro pleito
Era o mesmo papelão
O meu direito eu vendia
Fazendo uma covardia
Contra mi’a própria Nação.
Mesmo com todo o direito
Muitas vezes me calei.
Sofri muito preconceito
Por causa de quê, nem sei.
Sendo eu ignorante
Sei que já sofri bastante
Porque não tive leitura
Por isso sofro calado
Se eu tivesse estudado
A vida não era tão dura.
A gente faz o destino
Basta querer e lutar
Se você desde menino
Quer a vida melhorar
Tem toda oportunidade
Para lutar de verdade
Por aquilo que sonhou
Estude e tenha firmeza
Pois amanhã, com certeza,
Não será o que hoje sou.
Muitos homens de leitura
Que transformaram a Nação
Tiveram uma vida dura
Pra poder ganhar o pão
E mesmo assim estudaram
Com certeza se esforçaram
Coisa que talvez não fiz
São no mundo respeitados
Por todos considerados
Benfeitores do país.
Bem sei que a educação
Depende de muita gente
Precisa de muita ação
Pra poder ser diferente
Precisa-se do Senado
De prefeito e deputado
E até de vereador
Mas tem que correr atrás
Mostre do que é capaz
Estude e terá valor.
Por isso é que eu lamento
Sei que tenho o meu direito
Mas os “homi” não enfrento
Pois não sei falar perfeito
Portanto digo, meu neto,
Reaja, não fique quieto
Corra atrás do que é seu
Pois como não tive estudo
Fiquei cego, surdo e mudo
Mas não seja como eu.
Quando ainda era menino
Eu sonhava com riqueza
E apesar de pequenino
Tinha nos olhos a nobreza
Que toda criança tem
E todo homem de bem
Sabe o que quero dizer
Mas sem o conhecimento
É correr atrás do vento
Ninguém consegue vencer.
Parece filosofia
O que agora falei
Mas passei a vida inteira
Fazendo o quê, eu não sei
Pois um livro nunca abri
É claro, então, nunca li
Tudo é de ouvir dizer
Por isso sempre lamento
Meu grande arrependimento
É por eu não saber ler.
O livro tem uma janela (14)
Pr’um universo diferente
Só quem lê passa por ela
E do mundo é consciente
Rompe qualquer desventura
Pra ignorância tem cura
Em qualquer ocasião.
Invejo com alegria
A imensa sabedoria
Do grande rei Salomão.
Fico escutando os letrados
É como um livro de história
Não tem assunto complicado
Que beleza de memória!
Então fico pelos cantos
Com meu coração aos prantos
Lastimando meu destino
Só remoendo o passado
Por não ter aproveitado
O meu tempo de menino.
Espero, meu caro neto,
Ter me ouvido com atenção
Procure o caminho certo
Que é o da Educação
Tenha o livro como amigo
Pois o que eu fiz comigo
Nunca faça com você.
Nem que sofra igual a Jó
Pois não há nada pior
Que o homem não saber ler.
FIM
João Rodrigues Ferreira |
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27/08/2011 |
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Dilema de um
camponês
Eu vivo no campo, e nele trabalho
É meu quebra-galho, e meu ganha-pão
Aqui eu me encontro, me sinto pessoa
Nunca vivo à toa, amo meu torrão.
De dia eu trabalho, de noite descanso
O meu jeito manso é meu jeito de ser
Sou homem de paz, nunca quis a guerra
Pois todos na terra precisam viver.
Por isso é que vivo no interior
Num invejo Doutor nem homem da Lei
Sempre quis sossego, e viver sossegado
É do meu agrado, pois sempre sonhei.
No meu jumentinho eu ia pra feira
Mi’a vida faceira nunca quis mudar
Mas veio a idade, vendi meu jumento
Pois já num agüento de pé mais andar.
Pra comprar uma moto, fiz economia
Como garantia empenhei meu feijão
Um tubo de milho, um bode e um anel
Meu belo chapéu e o meu alazão.
Todo satisfeito e motorizado
Ia pra todo lado, pra onde eu queria
Economizei carne, só comprava osso
E com muito esforço paguei o que devia.
Nos dias de domingo pegava a Aninha
E de manhazinha íamos passear
Ela na garupa, bonita e cheirosa
E eu cheio de prosa, a lhe namorar.
A felicidade logo se acabou
Pois logo chegou um policial
Pediu documento, habilitação
“Doutor, tenho, não. Num me leve a mal.”
Prendeu minha moto e a pé eu voltei
Só eu mesmo sei a humilhação
Voltei com Aninha a pé pela estrada
Tristonha, cansada, que decepção!
Foi mais um sufoco, pra poder pagar
Pra mode eu tirar da Delegacia
Pedi emprestado dinheiro no banco
Aos tranco e barranco paguei o que devia.
Domingo de novo peguei a Aninha
E de manhãzinha fomos passear
De novo ela ia cheirosa e faceira
De brinco e pulseira, relógio e colar.
Mas logo pulou um cabra na estrada
Fez lá uma zoada, Aninha quis correr
O cabra gritou de arma na mão
Se deite no chão se não quer morrer!
Xingou, me bateu, chamou de safado
Um pobre coitado que mal pode andar
Que nunca fez mal a ninguém neste mundo
E vem um vagabundo para me humilhar.
Levou minha moto, levou meu trocado
Fiquei arrasado com a situação
Aninha, coitada, tremia e chorava
Enquanto me olhava deitado no chão.
Ficou sem relógio, sem brinco e colar
Sem poder falar com a tremedeira
Coitada, amarela, ali despojada
Pois ficou sem nada, nem mesmo a pulseira.
Seu moço, lhe digo, fiquei revoltado
Quando ao Delegado fui denunciar
Mal olhou pra mim, nem deu atenção
Como se o ladrão era quem tava lá.
Se saio no asfalto sei que sou multado
Vou ser assaltado se vou pela estrada
Portanto, seu moço, eu vou pra cidade
De bom na verdade num espero mais nada.
Agora, seu moço, não sei o que fazer
Vou ter que vender minha velha palhoça.
Como deixar tudo e ir pra cidade
Se a felicidade está aqui na roça?
Fim
João Rodrigues Ferreira |
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08/07/2011 |
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Insegurança:
um problema de todos
Foi-se o tempo em que comunidades do interior do município eram
sinônimos de tranquilidade, de paz e de sono angelical.
Aquele ar bucólico, quando parávamos às beiras de riachos para ouvir
o som das águas, o canto dos passarinhos ou o simples
voar de uma borboleta, já não existe mais. Não existe mais porque já
não paramos mais para ver isso, mas eles estão lá, com seus
encantos, esperando-nos para serem admirados.
Infelizmente não temos mais tempo pra poesias no interior. Disse
certa vez o imortal Patativa de Assaré, “... basta vê no mêis de mai
/ um poema em cada gai / um verso em cada fulô”.
E quem se arrisca mais a parar numa beira de estrada para observar
tais encantos? Confesso que ainda me arrisco. Acredito que alguns
ainda se arriscam. Mas muita gente, não. E com razão. Pois a poesia
interiorana foi trocada pelo medo da violência,
dos roubos e dos assaltos que fazem com que o povo se tranque mais
cedo em suas casas, e aquela roda de conversa à boca da
noite já não mais existe. E quando me lembro que foi naquelas rodas
de conversas que começavam à noitinha e se estendiam noite adentro
que aprendi a gostar de ler, de ouvir “causos” e que despertou em
mim o prazer da leitura e da escrita, entristeço-me profundamente,
pois sei que muitas crianças não terão a mesma oportunidade que
tive, por serem agora reféns do medo.
Culpa de um Estado omisso, que pouco ou quase nada faz para proteger
seu povo. E que infelizmente a Força que deveria nos proteger muitas
vezes envolve-se com o mal que nos ataca, levando à população a
ficar prisioneiro em seu próprio lar.
Professoras e professores, de segunda à sexta, se arriscam pelos
caminhos de escolas de interior, correndo o risco de serem
vítimas de bandidos. Mesmo com medo, eles vão lá e cumprem com a sua
obrigação.
Até quando, senhores e senhoras autoridades, ficaremos à mercê de
marginais que roubam nossos bens e nossa paz,
que aterrorizam famílias inteiras, comunidades inteiras? Até quando
vocês ficarão trancados em seus gabinetes enquanto esses bandidos
tiram de nós o nosso direito de ir e vir (que nos assegura a
Constituição), a inviolabilidade de nossos lares e muitos
outros direitos? Ou será que ao cidadão só resta deveres? “O dever
de trabalhar, o dever de pagar impostos,
o dever de ser submisso aos bandidos, o dever de ficar calado...?”
Nós, o povo, exigimos nossa paz de volta!
Faço minha a célebre frase do Almirante Barroso, na épica Batalha do
Riachuelo:
“O Brasil espera que cada um cumpra com o seu dever!”
Portanto, digo: “RERIUTABA ESPERA QUE CADA UM CUMPRA COM O SEU
DEVER!”
João Rodrigues |
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26/03/2011
UTOPI |
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UTOPIA NORDESTINA
O calor era insuportável.
Nenhuma sombra havia no meio daquele nada. Verde ali só alguns
mandacarus.
A cabeça de Fabiano fervia. Sinha Vitória vinha logo atrás com os
dois meninos, seguidos pala cachorra Baleia,
que de vez em quando cheirava algum osso que encontrava, mas logo
desistia, pois o osso era tão duro que mais parecia uma pedra.
A família de retirantes
marchava no meio daquela sequidão rumo a um futuro incerto, como
muitos outros já haviam feito.
Fabiano se arrependeu por não ter partido com Seu Tomás da
Bolandeira. Aquele velho sabido com certeza iria se dar bem na
cidade grande.
Não tinha ido junto por causa de Sinha Vitória, dizendo que não dava
certo. Mulher desgraçada! Por causa dela,
estava ali no meio daquele inferno, prestes a morrer de sede.
Infeliz! Devia ter largado ela lá e levado os meninos.
Olhou para trás e sentiu pena
daquela miserável que sofria tanto quanto ele. Como gostaria que a
chuva chegasse,
para não ter que deixar o querido sertão e acabar o sofrimento
daqueles coitados. Uma lágrima caiu de seu rosto,
enxugou-a com a mão empoeirada. Maldita seca! O sertão, outrora tão
bonito, agora estava daquele jeito, triste, sem vida,
só poeira e osso.
Agora carregava o filho mais
novo nas costas, pois o pequeno não aguentava mais as caminhada.
Sinhá Vitoria,
com uma trouxa na cabeça,
resmungava qualquer coisa enquanto segurava a mão do mais velho.
Coitada!
O sol deveria estar torrando os miolos daquela infeliz.
A sede já apertava, o último gole d’água da cabaça já tinha acabado.
Pediu a Deus que encontrassem pelo menos
um pouco de água barrenta, o que era quase impossível ali.
De repente, avistaram um
juazeiro. Bendita arvore! A única que resistia àquilo tudo. Agora
iriam descansar um pouco.
Fabiano foi o primeiro a sentar, admirando-se com a quantidade de
pássaros na árvore.
Pensou um pouco, talvez tivesse água por perto, só podia ter! logo
Baleia apareceu com as patas molhadas de.
Era uma nascente de água cristalina. Beberam até matar a sede.
O sertanejo tirou o chapéu da cabeça e agradeceu a Deus. De sede não
morreriam mais. Logo caíram num sono profundo.
O sertão estava bonito que
dava gosto! O gado, gordo que era uma beleza! Sinhá Vitoria e os
meninos estavam gordos também.
Até Baleia estava mais bonita. Também pudera! Fabiano agora era
fazendeiro, tinha gado e terra,
não dependia mais de patrão nem de ninguém. Nunca mais trocaria o
Nordeste por lugar nenhum deste mundo.
A miséria tinha acabado, não tinha mais seca, graças a Deus e a Seu
Tomás da Bolandeira.
O velho tinha voltado para o
sertão e trazido com ele um doutor, um tal engenheiro agrônomo, para
resolver o problema da seca.
Seu Tomás sempre dissera que naquele chão tinha água de sobra. E
tinha mesmo.
Fizeram poços e barragens, canalizaram a água na terra toda. estava
feita a irrigação de que o velho tanto falava.
O governo dividiu a aterra entre o povo. Agora todos podiam plantar
e colher seus próprios frutos. A seca tinha acabado.
Fizeram uma cooperativa, e o
que sobrava da safra era vendido para a cidade grande.
E Fabiano sorria! Seus dentes agora brancos e bem-cuidados eram
resultado de mais uma ideia de Seu Tomás.
Haviam construído um posto de saúde, e o governo dava assistência. E
o povo sorria!
Fabiano botou os meninos na
escola, pois estudar dava resultado. Não queria que os filhos fossem
como ele.
Não é que o diabo do velho tinha razão! Estudar era bom mesmo! Até
Sinha Vitoria queria aprender a ler, e aprendeu.
Todas as crianças foram para a escola. Como estava diferente o
sertão! A solução sempre estivera lá, esperando alguém para
descobrir.
Era como Seu Tomás dizia: “Os poderosos jamais resolverão nosso
problemas, Fabiano. Eles nos querem sempre burros e na miséria.”
O velho tinha razão. Como era sabido aquele velho!
Mas agora acabara. O sertão
era dos sertanejos, como sempre deveria ter sido. Pois o sertanejo
nunca quis esmola,
mas sim uma oportunidade para obter seu próprio sustento.
Nunca quis a aterra de ninguém, mas sim condições de viver com
dignidade no seu próprio chão.
Aqueles miseráveis sugavam até a última gota de sangue do pobre
homem. Isso também acabara.
O Nordeste agora era outro.
Tinha água e comida, tinha fartura. O povo tinha estudo, tinha uma
visão melhor do mundo,
não era mais escravo da ignorância. Tudo de que o sertanejo
precisava era trabalho digno e educação.
Fabiano tinha isso. O povo tinha isso. A miséria do Nordeste nunca
foi a seca, e sim o descaso político.
Mas o Nordeste venceu a
ignorância, a fome e a seca. E o Nordeste agora sorri.
Texto classificado no
Prêmio Literário “Nossa gente, nossas letras”,
em homenagem a Graciliano Ramos, e publicado pela Editora Record –
RJ, em 2003.
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12/02/2011
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A inevitável
queda
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Vejo nas amarelas folhas de um
passado já remoto as vagas lembranças de um menino franzino
(correndo com os cavalos),
sem preocupação, feito uma folha jogada ao vento, voando, apreciando
a doce e passageira liberdade que a vida oferece.
Enquanto escrevo, observo, através de minha janela, a chuva caindo e
deslizando vidraça abaixo; a força da gravidade.
Nada evita a queda. Até mesmo a mais simples gotinha de chuva
escorrega janela abaixo em direção ao solo.
O vento sopra forte agora; esse mesmo vento que soprava meus cabelos
quando menino;
cabelos esses que não mais existem, e que são apenas lembranças que
também já amarelaram,
que desceram feito as gotinhas que deslizam na minha vidraça.
Eles também não resistiram à força da gravidade. Nada evita a queda.
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Vejo as palhas dos carnaubais serem lançadas ao vento, rodopiando,
sem destino.
Aquele menino franzino dos tempos dourados também rodopia em minha
memória.
A sua idade fora lançada não para baixo, mas para a frente - ano
após ano.
Olho na estante uma velha fotografia. Ainda retrata o sorriso da
inocência.
Pego carona nas asas das recordações e deslizo feito uma jangada que
singra os mares
empurrada suavemente pelo vento mar adentro, que se dirige rumo à
imensidão do infinito oceano.
Como estou diferente! Quem me dera ter ainda aquela pureza!
Não que a pureza exista, não que a inocência também exista,
mas a idade que ainda não conseguiu ver a diferença das coisas.
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Já comi meu pedaço de maçã. O pecado do conhecimento já se apossou
de mim.
A maçã que Newton observou cair, descobrindo assim a Lei da
Gravidade.
A maçã que Eva comeu, obtendo assim o conhecimento.
A maçã que eu comi: descobrindo que o tempo passou - que não há mais
inocência - e que também
devo colocar uma folha de parreira em minhas vergonhas.
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A gotinha que caiu se uniu às outras e se fez um rio, correu para o
mar, tornou-se ondas;
depois evaporou e fez-se nuvem e caiu de novo. Nada evita a queda.
O menino que se formou homem, que se formou velho, que unir-se-á à
terra.
Eu, o menino; eu, o homem - evaporando, sumindo pouco a pouco,
perdendo os movimentos, a flexibilidade, as rugas aparecendo assim
como
amarelam as palhas das carnaúbas que estão caindo.
É duro compreender, mas é necessário. Tudo tem o seu fim.
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Meus dedos ficam imóveis sobre o teclado do meu computador.
Agora leio minha memória já enferrujada pelo tempo e, em letras
quase apagadas,
vejo que nada escapa ao tempo. O tempo que torna o homem capaz de
perceber que a vida
não é nada mais do que uma simples passagem, onde os homens se
afogam em
vaidades e se tornam escravos de sua própria ignorância - e que nada
impede a inevitável queda.
João Félix |
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11/12/2010
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NATAL POR OUTRO ÂNGULO
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As ruas estavam vazias. Lojas e shoppings decorados com árvores de
Natal e milhares de luzes coloridas que piscavam intermitentemente.
O clima natalino pairava no ar. Fogos de artifícios estouravam aqui
e ali. Algumas pessoas ainda passavam correndo em direção ao lar.
Certamente a ceia estava sendo preparada e os familiares
esperavam-nas para a confraternização. A casa à frente tinha uma
mesa farta, repleta de refrigerantes, cervejas, panetones, rabanadas
e uma infinidade de guloseimas. Crianças correndo pra lá e pra cá
brincando com seus presentes que o Papai Noel trouxera. Uma música
animada convidava todos a uma dança. Meia-noite. Homens, mulheres e
crianças se abraçavam e trocavam presentes, bebiam e comiam à
vontade. Confraternizavam-se. A TV começava a apresentar a Missa do
Galo. A paz, a comunhão, a solidariedade. E o Pivete observava tudo,
sem nada entender, pois certamente não conhecia aquelas palavras e
ações, assim como também não sabia de que forma saciar sua fome. E
saiu sozinho pelas tristes ruas de uma alegre noite de Natal.
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João Félix |
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07/11/2010
João Felix
As aventuras de Chicó
O poeta é como o vento
Pois viaja em todo o mundo
Vai pra perto, vai pra longe
Do mais raso ao mais profundo
Vai aonde não imagina
E do Brasil para a China
Faz em menos de um segundo.
E foi nessas aventuras
Que fui parar no sertão
Terra de Maria Bonita
Padim Ciço e Lampião
Para escrever a trajetória
De um Cabra cheio de glória
Valente e cheio de razão.
No dia dois de novembro
Do outro século passado
No ano cinquenta e oito
Num minúsculo povoado
Nasceu um pequeno bruguelo
Magro, feio e amarelo
Feito joelho amassado.
Antes de raiar o sol
Gritou na baixa o Socó
Na vazante a jaçanã
Cantava num ritmo só
E logo a lua se escondeu
E assim que o sol nasceu
Também nasceu o Chicó.
Nesse momento a parteira
Correu no mato, assustada
Mesmo sendo feiticeira
Ficou a velha assombrada
Com o bebê que nascia
E depois daquele dia
Nunca mais foi encontrada.
O sol, que havia nascido
Cuidou de se esconder
A Terra ficou escura
Nem gato conseguia ver
Rasga-mortalha gritou
O menino se assustou
Parecia que ia morrer.
Ficou roxo e todo inchado
Faltou a respiração
Trouxeram uma lamparina
Pra afastar a escuridão
Mas quando viram o coitado
Correu o povo, assombrado
Deixando Chicó no chão.
Só ficou mesmo a mãe dele
E começou a chorar
Se valeu de São Francisco
Para o menino salvar
Mas a Morte veio primeiro
Porém chegando ao terreiro
Não quis o bebê levar.
Botou a foice no ombro
Dali desapareceu
O menino retornou
E a mãe agradeceu
Ao santo do Canindé
Dizendo alto a mulher:
“São Francisco me atendeu”.
Passadas duas semanas
O menino se ajeitou
Tinha jeito de galã
E postura de doutor
Agora estava corado
De cabelinho dourado
E o povo se admirou.
Logo chamaram o vigário
Pra fazer o batizado
Que quando viu o menino
Ficou muito admirado
Pois parecia um encanto
Botaram o nome do Santo
E de Chicó foi chamado.
Por onde Chicó passava
Chamava logo atenção
Nem parecia o menino
Que fez tanta confusão
Agora as menininhas
Bonitas e assanhadinhas
Queriam o seu coração.
E assim Chicó cresceu
Galante e namorador
Arrasando corações
Da mulherada era o amor
Mas dos “cabra enciumado”
Dos “cabôco apaixonado”
O Chicó foi o terror.
Arranjou muito inimigo
Mas nunca temeu um não
Fosse na perna ou no braço
Na peixeira ou no Oitão
Chicó tava preparado
E muito cabra safado
Chicó sacudiu no chão.
Filhos de todas as horas
Não temia escuridão
Andava aonde queria
Fosse na serra ou sertão
Por estradas assombradas
Cheias de almas penadas
Passava por diversão.
Numa de suas andanças
Encontrou um amortalhado
E quis agarrar Chicó
Que deu um salto pro lado
E Chicó puxou o Oitão
E disse: “Senta no chão,
Amortalhado safado!”
Pensando que ia morrer
O amortalhado sentou
Chicó puxou a mortalha
Então quase desmaiou
Era uma linda morena
Com cheiro de açucena
De olhar encantador.
Chicó guardou o revólver
E à jovem pediu perdão
Dizendo: “Minha princesa,
Não foi essa a intenção.
Se você quer ir comigo
Pode vir, não tem perigo.
Você tem meu coração”.
E ali naquele momento
Os dois jovens se abraçaram
Entre beijos e abraços
No meio do beco se amaram
A cama foi mesmo o chão
E uma bonita canção
Os anjos do céu cantaram.
Após terminarem o ato
A moça disse: “Amor,
Me leve pra minha casa
Me faça esse favor.
Se meia-noite eu não chegar
Não me deixam mais entrar,
Pois você me atrasou.”
Disse Chicó: “Não esquente,
Eu vou lhe deixar, amor!”
A lua logo se escondeu
Rasga-mortalha gritou.
Pra completar o mistério
Chegando no cemitério
Por lá a moça ficou.
Apesar de corajoso
Chicó se arrepiou
Logo o Chorão- da-meia-noite
Na sua frente gritou
Chicó disse: “Tá danado!”
É Chorão e Amortalhado
Só o Diabo que faltou!”
Nisso escutou uma voz:
“Agora não falta mais!”
Chicou pulou para o lado
E quando olhou para trás
Viu que a noite num era boa
No meio da estrada em pessoa,
Estava ali o Satanás.
Valeu-se de São Francisco
Seu padin de batizado
O Diabo deu um espirro
Fedendo a chifre queimado
E saiu em disparada
Chicó pegou a estrada
Quase que fica assombrado.
Noutra de suas andanças
Que fazia de madrugada
Andando de bicicleta
Passou numa encruzilhada
A bicicleta pesou
Pois na garupa sentou
Uma velha alma penada.
A velha quando era viva
Era gorda feito o cão
Tinha morrido atropelada
Debaixo de um caminhão
Como era coisa ruim
Vivia com esse fim
De fazer assombração.
A velha se acostumou
Toda vez que ele passava
Ela pegava carona
Lá na frente ela saltava
Um dia Chicó no escuro,
Gritou: “Eu te esconjuro!
Vai pro inferno, safada!”
A velha então deu um grito
Que Chicó se arrepiou
O chão ali se abriu
O véu do céu se rasgou
Logo apareceu o Cão
Pegou a velha pela mão
E pro inferno levou.
Chico de tudo já viu
Lobisomem, assombração
Sereia , boto, caipora
Alma penada e Chorão
E como ele mesmo diz
Andou por todo o país
E não faltou confusão.
Andou pelas Amazonas
Acre e Rio de Janeiro
São Paulo e até Alagoas
A terra dos cangaceiros
Andou por todo lugar
Rondônia, Goiás, Pará
Só não foi no estrangeiro.
Fugiu com moça donzela
Deixou noiva no altar
Já amou mulher casada
Fez casal se separar
Já fugiu com empregada
Sumiram na madrugada
Só voltou ao sol raiar.
Se eu fosse escrever tudo
De nosso herói, afinal
Dava pra escrever livros
Encher páginas de jornal
Mas aqui finda o cordel
Pra Chicó tiro o chapéu,
Figura sensacional!
João Félix
(Este cordel é em homenagem ao meu amigo Chicó, figura pitoresca do
município de Reriutaba, bem-humorada e uma grande figura humana).
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05/11/2010
João Felix
Conto premiado no Concurso de Contos de
Caminhoneiros – patrocinado pela Mercedes-Benz
Sem direção
“Feliz foi Adão, que não teve sogra nem caminhão.” – Frase de
para-choque de caminhão
Da pequena Reriutaba, na divisa da serra da Ibiapaba com o sertão,
no Ceará, saiu Chico Mufumbo, ex-vaqueiro e boia-fria, pra tentar
uma vida melhor nas terras do Sul. A exemplo da maioria de seus
conterrâneos reriutabenses, seu destino foi o “meio do mundo”, como
eles falam por lá; riria pra uma terra onde corresse dinheiro farto
e desfilassem mulheres bonitas. O Velho Chico, como também era
conhecido, pegou seu matulão e seus documentos (na verdade, apenas a
Identidade, já que os demais documentos nunca foram tirados) e
partiu para a beira da estrada.
Analfabeto de pai e mãe, mas cheio de disposição, Velho Chico saiu
se despedindo de todos que encontrava pelo caminho. Ao perguntarem
pra onde ia, respondia: “Pra onde a venta apontar”. E assim
caminhava distraidamente em direção à beira da pista onde esperava
pegar seu destino, ou seja, uma carona pras bandas do Sul – ou pra
qualquer lugar. Ali, naquela época, era rota de carga, onde
caminhões varavam as estradas de terra batida, cheias de buracos e
lama, com destino a algum lugar. Passavam caminhões que
transportavam farinha e rapadura para o sertão; e, do sertão,
traziam bode, carneiros, feijão e outras coisas para a serra.
Eu, como o Velho Chico, também andava sem direção. Na verdade eu ia
rumo ao Norte, tentar a sorte nos seringais do Pará. Mas se
aparecesse algum trabalho pelo meio do caminho, ficaria. Eu havia
sido caminhoneiro durante vários anos, de modo que conhecia as
terras daquelas bandas. Para me manter durante a viagem, reservei
dinheiro. Fui obrigado a vender meu velho Ford chamado Trovão e
guardei a mixaria para essa aventura. Como ex-caminhoneiro – na
verdade não existe ex-caminhoneiro, mas, sim, caminhoneiro sem
caminhão –, meu plano era juntar uns trocados o suficiente para
comprar outro caminhão e voltar a fazer o que eu mais gostava: pegar
a estrada. Assim parti. Cheio de sonhos.
Saí das bandas da Ibiapaba de carona com um velho amigo meu até
Reriutaba, onde ele ficaria. Teria de continuar sozinho. Naqueles
anos de 1950 não era fácil transporte pra viagens longas. Só algum
navio partindo da capital, mas sempre saía um pau-de-arara com
destino ao oco do mundo, cheio de sertanejos fugindo da seca, sem
muito rumo.
Ao chegar à Reriutaba, fui informado de que no dia seguinte ia sair
um desses paus-de-arara pras bandas do Sul. Resolvi esperar.
Encostei num posto de gasolina, onde havia uns caminhões
estacionados e pedi permissão ao proprietário para passar a noite
ali. Ele permitiu. Havia um botequim ao lado, no qual pude tomas
umas antes de ir dormir. Armei minha rede entre dois caminhões, da
lateral de uma à lateral de outro, mas não avisei aos motoristas,
pois eles estavam descansando e não quis incomodá-los. Peguei no
sono. Quando acordei, lá pelas tantas da madrugada, um dos caminhões
ia dando partida e não tive tempo de saltar da rede, de modo que
minha humilde tipoia foi rasgada ao meio e eu caí de costas em um
poço de lama, ou melhor, de óleo de motor. Lá se foi minha banda de
rede pendurada no caminhão...
Do meio da escuridão surgiu um vulto e me estendeu a mão. Apoiei-me
naquele desconhecido e me levantei, todo sujo de óleo.
– Muito prazer, Francisco mariano de Sousa, mais conhecido como
Chico Mufumbo – disse.
– Muito prazer, Isidoro de Andrade, mas pode me chamar de Trovão –
respondi.
Chico Mufumbo era um homem de seus quarenta e tanto anos, forte,
peito largo e rosto queimado do sol, meio corcunda, barba bem-feita
e bigode aparado. Usava um chapéu de couro na cabeça. Um sertanejo
típico. Trazia um matulão nas costas, onde carregava umas poucas
roupas já surradas e um punhado de comida. Explicou-me que dentro de
meia-hora ia sair um caminhão em direção ao Sul. Ele estava ali pra
partir rumo ao desconhecido, pois ia tentar a sorte em outras
paragens, já que, com a seca apertando por ali, estava sem trabalho.
Às quatro horas da manhã o pau-de-arara encostou-se ao posto de
gasolina, cheio de homens e redes penduradas pra tudo que é lado.
Todos os passageiros com o mesmo destino, ou seja, sem destino. A
maioria ia para o Sul; outros ficariam em qualquer fazenda que lhes
dessem emprego. Chico Mufumbo era um desses: onde conseguisse
trabalho, ficaria.
O velho caminhão saiu, pesado, roncando e soprando fumaça. Buzinava
como se estivesse se despedindo. Seguiu na escuridão carregando
homens e sonhos. Lembrei-me de meus tempos de caminhoneiro, quando
também partia, cheio de sonhos e saudades, pelas estradas
esburacadas país afora. O cheiro de fumaça se misturava ao medo,
pois a traiçoeira morte poderia estar de tocaia na próxima curva, o
cansaço que tomava conta de meu corpo e de minha cabeça era
suportado à base de arrebite. Lembrei-me das vezes em que rodava
dias e dias seguidos, das vezes em que trocava pneus em estradas
desconhecidas e das vezes em que ficava horas á beira de uma rodovia
esperando alguém que pudesse me dar uma mãozinha, me tirando do
prego. Pegava atalhos pra fugir dos ladrões de carga, passava muitas
e muitas noites na solidão de uma cabine ou nos braços de um amor de
beira de estrada.
Em meio a tantos devaneios, voltei à realidade quando o motorista
parou e anunciou:
- Atenção, senhores passagêro! Vô falá das passage. Passagêro de
primêra classe paga mil cruzêro. Passagêro de segunda classe paga
quinhentos cruzêro. E passagêro de tercêra classe paga cem cruzêro.
Pru favo, vamu adiantá as passage.
Chico Mufumbo perguntou:
- E quem pagar mais caro vai onde?
O motorista respondeu:
- Seja de qual classe fô, todos vão na carroceria do caminhão, tudo
junto.
Chico olhou pra mim e falou:
- Se vai todo mundo junto, vou pagá tercêra classe, que é mais
barato.
Concordei. E fomo satisfeitos com tamanha economia.
Após vários dias de estrada e muita chuva, acordamos às cinco da
manhã com os gritos do motorista, bem no meio de um atoleiro. O frio
cortava o corpo. Luz, apenas dos faróis. O caminhão estava atolado
até os eixos. O motorista, então, gritou:
- Atenção, pessoal! Os pasagêro de primêra classe fique assentado.
Os de segunda classe têm que descer do caminhão. E os de tercêra
classe vão desatolar o caminhão.
Disparei a rir, pois em muitos anos de estrada eu nunca tinha
presenciado nada parecido.
Chico Mufumbo me olhou com um olhar de quem não tinha entendido
nada, pegou seu matulão, acendeu um cigarro e saiu estrada afora
cantando: “Minha vida é andar por essa país / pra ver se um dia
descanso feliz...”
Não tive dúvidas. Peguei minhas coisas e segui Chico Mufumbo, de
quem já havia me tornado amigo. Quando liguei minha lanterna,
consegui ler uma frase no para-choque traseiro do caminhão: “Feliz
foi Adão, que nunca teve sogra nem caminhão.” Pura verdade!
E pela primeira vez na vida abandonei uma carga pelo caminho sem
sentir remorsos.
João Félix |
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30/10/2010
A triste partida
João Felix
Um P.S ao Mestre Patativa
Ao imortal Patativa, tão simples e de poesia tão rica,
peço a permissão para publicar aqui, num espaço exclusivamente nosso, mas
que todos os irmãos têm o direito de entrar, sempre que quiser, a linda
“Triste Partida”.
Que nordestino não se identifica com esse hino? Sim, um
hino à La Patativa, que soube como poucos retratar tão fielmente a alma do
cabôco sertanejo! Qual dos cearenses que, distante de sua terra, não
mareja os olhos ao ler essa poesia? Eu mesmo, já aqui na terra natal,
ainda mergulho meu espírito nas límpidas águas que emanam de minha alma
sempre que ouço o Velho Luiz troar esta música da serra ao sertão. A
triste Partida é uma poesia pra ser lida e relida tantas e tantas vezes,
pois ela é o espírito do cearense dissolvido em letras. Ela é dura, cruel,
amarga, mas real, singela e sensível. Ela retrata o antes, o durante e o
depois da “arribação”, e relata, passo a passo, cada dor, cada espinho
entrando no coração do migrante. O sofrimento de deixar a terra natal, o
risco de levar a família a terras alheias, a saudade que tortura, que
destroça o peito de um homem já acuado diante da miséria, mas que ainda
luta desesperadamente pela sobrevivência. E diante dessa loucura natural,
desse destino cruel, vai pra outras paragens e acaba tendo uma vida ainda
mais terrível: ser submisso a outro homem.
Realmente Patativa não poderia nos deixar legado maior
que esse: a alma sertaneja esmiuçada em seu linguajar tão simples, mas de
poesia tão nobre, exposta ao mundo, transparente tanto quanto as lágrimas
de milhares de nordestinos que se identificam com essa verdadeira obra de
arte.
E assim (como afirmou o mestre Patativa) ainda vivem
milhares de sertanejos – tão fortes, tão bravos – como escravos nas terras
do Sul.
A TRSITE PARTIDA
Letra: Patativa de Assaré
Música: Luiz Gonzaga
(Está aqui preservada a escrita original de Patativa).
Setembro passou, com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre do seco Nordeste
Com medo da peste, da fome feroz.
A treze de maio ele fez a experiença,
Perdeu sua crença
Nas pedras de sá.
Mas nôta experiença com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natá.
Rompeu-se o Natá, porém barra não veio,
O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata, buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.
Sem chuva na terra descamba janêro,
Depois feverêro,
E o mêrmo verão.
Entonce o rocêro, pensando consigo,
Diz: - isso é castigo!
Num chove mais não!
Apela pra maço, que é o mês preferido
Do santo quirido
Senhô São José.
Mas nada de chuva! Tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.
Agora pensando seguí outra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo meu burro, meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Palo
Vivê ou morrê.
Nóis vamo a São Palo, que a coisa tá feia;
Por terras aléia
Nós vamos vagá.
Se o nosso destino não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nóis torna a vortá.
E vende o seu burro, o jumento e o cavalo
Inté mermo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece um feliz fazendêro,
Por poço dinhêro
Lhe compra o que tem.
Em riba do carro, se junta a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.
O carro já corre no topo da serra,
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá.
Aquele nortista, partido de pena, de longe inda acena:
Adeus, Ceará!
No dia seguinte, já tudo enfadado,
E o carro embalado, veloz a corrê,
Tão triste, coitado, falando saudoso,
Um fio choroso
Escrama a dizê:
- De pena e sodade, papai sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Que dá de comê?
Já Oto pregunta: Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!
E a linda pequena tremendo de medo:
- Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé de fulo!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.
E assim vão dexando, com choro e gimido
Do berço querido
O céu lindo e azú.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Sú.
Chegaro em São palo – sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente
Tudo é diferente
Do caro torrão.
Trabaia dois ano, três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só veve devendo.
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.
Se arguma notíça das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uví,
Lhe bate no peito sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.
Do mundo afastado, sofrendo desprezo,
Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia e vem dia,
E aquela famia
Num vorta mais não.
Distante da terra tão seca, mas boa
Exposto à garoa
À lama, ao paú,
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do Sú.
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20/10/2010
Este texto foi publicado no livro do Alderico Neto.
João Felix
Reminiscências
O ano era mil novecentos e oitenta e três. Recordo-me muito bem
porque foi um ano meio difícil no Ceará. O inverno não foi bom. E
com pouca chuva o sertão fica feio e o povo, triste. Mas mesmo com
todas as adversidades o cearense não desanima; e o reriutabense é
igual ao mufumbo, enverga, mas não quebra.
Antes de nascer o sol eu saltava da rede, me arrumava como podia,
tomava um café que minha mãe deixava esquentando na caçarola na
beira do fogão a lenha, engolia um pedaço de tapioca, às vezes nem
isso, e partia com destino ao Colégio Raimundo Mesquita, mais
conhecido na época como RM.
Eu sempre saia às pressas, pois de Riacho das Flores, sítio onde eu
morava, para Reriutaba era mais ou menos uma légua. E eu ia a pé. E
voltava. Muitas vezes pegava uma carona com um amigo ou outro, de
bicicleta, na garupa de um jumento, num carro de boi... tudo era
festa. Às vezes nem tanto. Mas a vontade de estudar, e de vencer,
era mais forte que o sol quente do meio-dia, que as areias do rio
São José ou o lamaçal do Belchior.
E pelas estradas afora, muitas vezes solitário, ia eu, com meus
cadernos debaixo do braço pensando coisas que pensa um menino de
onze anos. Para ser sincero já nem lembro muito o que eu pensava. Ía
distraído, muitas vezes, ouvindo o canto dos passarinhos, matando
uma mutuca aqui e ali – às vezes tinha a impressão de que ouvia o
assobio do caipora, o que me fazia apertar o passo – tentando
memorizar alguma questão de prova, ou pensando na menininha que
sentava ao meu lado.
Com os kichutes já brancos de poeira, eu chegava no alto perto da
Copita e via Reriutaba me estendendo os braços, humilde e pequena,
mas era minha. E mesmo em sua pequenez eu era engolido por ela, eu,
apenas um menino de interior, me sentia como se estivesse em uma
metrópole; atravessava a Vila Nova, passava em frente ao João
Cebola, passava atrás do Oficial, pela pontezinha perto da antiga
casa da Marlene cabeleireira, pela Barbearia do Joãozinho e me dava
de cara com a Igreja matriz. A velha igreja na qual, anos após me
crismei e que, em tempos de festas, costumava dar voltas e mais
voltas ao seu redor, como fazia todos os garotos e garotas do
interior.
Naquela hora da manhã o pastel do Tito já exalava seu cheiro gostoso
e me enchia de vontade de comer unzinho, pelo menos um. O relógio da
igreja soava sete horas e eu saia correndo. Não queria chegar
atrasado e ter que agüentar os carões da Dona Socorrinha, diretora
do colégio. Muitas vezes, vadiando pelos corredores em hora de aula,
avistava Dona Socorrinha vindo no mesmo corredor que eu, em minha
direção; minha única solução era escapar no banheiro masculino, pois
sabia que ali ela não entraria. Aprendi isso com os garotos mais
velhos do que eu: Zé Macedo, Jorge Cascão, Fernandinho (o Chorão),
Vilinha, entre outros.
A hora do recreio era a mais gostosa. Contava as horas pra comer um
pastel com um picolé de buriti que o Pirital vendia na porta do
colégio. E iam embora minhas moedinhas.
Crianças... Ah! Como são felizes em sua inocência. São felizes com
uma simples volta ao redor da pracinha; ao comer um pastel com
refrigerante no Tito; se deliciar com uma fruta no galpão enquanto
olhava o trem passar; soltar pipa na Rua da Tripa, no bairro da
Rampa... e até mesmo ouvir uma conversa meio maluca do Gerardinho
era divertido. Sim, era divertido. E extraordinário. Vejo isso hoje,
já bem distante de minha infância desbotada pelo tempo que isso são
coisas únicas, exclusivas de minha tímida e pacata Reriutaba. Pois
não há dois RMs, nem dois Piritals, nem dois Gerardinhos, nem duas
Ruas da Tripa... tudo é belo em sua unicidade, assim como é bela e
única a minha velha e boa Reriutaba. E que, mesmo distante milhares
de quilômetros, me sinto em seu âmago, preso a ela como um bebê
ligado à mãe pelo cordão umbilical.
E, ao dormir, me vejo menino novamente, embalado pelas doces
lembranças de uma infância marcada por belas histórias. O trem
passa... o caipora assobia... um pastel se desmancha em minha
boca.... ZZZZZZZZZZZZzzz....
João Felix
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15/10/2010
Dá-se gosto de lembrar / da terra onde fui criado
Lá na terra onde nasci
O sol se põe às seis horas
Onde assobia o Caipora
No matagal entrançado
O vaqueiro bom de gado
Querendo um boi agarrar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
A coruja nas estradas
O viajante acompanha
Um bezerro cheio de manha
Tá no curral chiqueirado
Um rapaz apaixonado
Fica na noiva a pensar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Tem jerimum, tem feijão
Tem arroz e mandioca
Rapadura e tapioca
Tem cuscuz e milho assado
Baião de dois caprichado
Carne assada e mucunzá
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
No alpendre a rede armada
Pra quem quiser se deitar
Pode dormir e sonhar
Com o sertão verde e molhado
Canta o Coleira animado
No galho do trapiá
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
No alpendre tem cangalha
Debaixo dela a esteira
Um cabresto e uma perneira
Um gibão velho rasgado
Chapéu de couro ensebado
Que eu gostava de usar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Um velho carro de boi
Debaixo do cajueiro
Lá na beira do terreiro
Com o cabeçalho quebrado
Lembro do tempo passado
Quando eu ia carrear
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Uma reca de capote
Atrepada no poleiro
O galo véi no terreiro
“Cobre” galinha adoidado
Um rouxinol animado
Canta no pé de jucá
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
No caco está o café
Torrado por Mariazinha
Que já tá quase mocinha
De coração apaixonado
Se alembra do namorado
Então começa a cantar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Quando no mês de dezembro
Chega a primeira chuvada
A sabiá animada
Canta num tom arrojado
E um menino danado
Vai pra chuva se banhar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
No riacho tem cará
Tem biquara, tem bodó
Cangati e tem socó
Pegando peixe adoidado
Tem menino enlameado
Com vontade de pescar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Tem canção, anu, rolinha
Mané-besta e periquito
Papa-lagarta e sibito
O João-de-barro animado
No meio do barro amassado
Pra na casa trabalhar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Tem Tejo, peba e tatu
Tem raposa e tem preá
Um cachorro pra caçar
O hábil gato pintado
Que acuado, atrepado
Se põe, de medo, a miar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Tem mufumbo, tem pau-branco
Canafista e juazeiro
Oiticica e pau-pereiro
Se acha por todo lado
Jucá é pau reforçado
Tem pau d’arco e trapiá
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Imburana e marmeleiro
Jurema preta e angico
Onde grita o periquito
Comendo o milho roubado
Que carrega do roçado
Jurema branca e cajá
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Tem melancia-da-praia
Tem mutamba e canapum
Melancia e jerimum
Feijão-de-corda guardado
Num quarto velho entubado
Pra quando o verão chegar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Tem arupemba e assadeira
Surrão, pilão e grajau
Aguidá, espeto, jirau
Foice, chibanca, machado
Tem picarete encabado
Para um cacimbão cavar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Espingarda socadeira
Cabresto e chiquerador
Enxada e até ciscador
Na cerca velha encostado
Um facão novo amolado
Mochila e até patuá
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Quando é na Semana Santa
A fartura tá na mesa
O povo vê a beleza
Que saiu de seu roçado
A Deus Pai, ajoelhado
Agradecendo a rezar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Logo chega o mês de junho
E as festas de São João
É aquela animação
O forró rola pesado
É bêbado pra todo lado
Bebe aqui, cai acolá
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Logo sai uma mão de tapa
Pelas pontas do terreiro
Pois um cabra arruaceiro
Tá cheio de cana, exaltado
Não demora, e o delegado
Chega pra farra acabar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
O cabra vai pro xadrez
Resmungando palavrão
Leva logo um empurrão
De um soldado folgado
Mas um político é chamado
E manda o bêbado soltar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Assim vai passando a vida
O ano passa correndo
E as coisas acontecendo
Naquele sertão amado
Festa, cantoria, reisado
Serenata no luar
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
À noite, ao som da viola
Lá na beira da fogueira
A moça namoradeira
Se agarra ao namorado
E num arrocho apertado
Mão pra lá e mão cá...
Dá-se gosto de lembrar
Da terra onde fui criado.
Em outubro as eleições
Chegam pra fazer intriga
Discussão termina em briga
De eleitor exaltado
Os votos sendo comprado
Antes do cabra votar
Isso nem é bom lembrar
Da terra onde fui criado.
Lá pelas terras do Sul
O sertanejo padece
Ao Deus do céu faz a prece
Pedindo um inverno pesado
Só relembrando o passado
Se põe num canto a chorar
Já nem quer mais se alembrar
Da terra onde foi criado.
João Félix
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09/10/2010
O Homem que roubava livros
Que os deuses da poesia
Deem a mim inspiração
Pra mode eu contar um “causo”
Que aconteceu no sertão
Pras bandas de Reriutaba
Pertinho de Guaraciaba
Nas terras de seu Simão.
No dia de São Sebastião
Aos vinte dias de janeiro
O céu rasgou-se em duas bandas
Foi o maior aguaceiro
Encheram-se os riachos
O sertão de cima a baixo
Transformou-se em atoleiro.
Raimunda Mão de Pandeiro
Muié fulêra e safada
Tava com o Zé Carneiro
Dando uma furunfada
Foi quando viu o Nonato
Entrando dentro do mato
Numa carreira danada.
Raimunda, desconfiada
Foi ver o que aconteceu
Sua casa estava aberta
Escura que nem um breu
E foi logo percebendo
Que o livro que estava lendo
Dali, desapareceu.
Sem saber o que aconteceu
Pensou ser alma penada
Que procurava uma Bíblia
Levando o livro, enganada.
Mas se lembrou de Nonato
Entrando dentro do mato
Correndo, na disparada.
Como era desconfiada
Raimunda ficou cabreira
E pensou por que Nonato
Saía naquela carreira
Era melhor esquecer
Nonato nem sabia ler
E esqueceu a besteira.
Num dia de segunda-feira
Raimunda foi à cidade
Como gostava de ler
Comprou um “Mário de Andrade”
Dessa vez teve cuidado
Deixou o livro guardado
E foi à casa da comadre.
Falando com seu comprade
Do livro que havia comprado
Pra substituir o outro
Que tinha sido roubado
O compadre lhe falou
Que alguém lhe surrupiou
Seu “Quincas”, de Jorge Amado.
Depois de ter se informado
Com a população local
Viu que o roubo de livros
Por ali era normal
Qualquer papel amassado
Até escritor consagrado
Mesmo revista ou jornal.
Então não era anormal
Livro desaparecer
Porém o que admirava
E ninguém sabia dizer
É como o livro sumia
E pronde diabo é que ia
Se quase ninguém sabia ler.
Pra não confundir você
Que já tá se perguntando
Como ninguém sabia ler,
Se de livro tô falando?
Mas você entenda bem
Eu disse: “Quase ninguém”.
Não tou generalizando.
Caro leitor, vou dizer
Naquela comunidade
Não tinha nem uma escola
Por falta de boa vontade
Do “nosso ” representante
Que com ares de importante
mandava em nossa cidade.
Pois não era novidade
Ninguém gostar de leitura
E o povo que ali morava
Levava uma vida dura
Nada mais tinha importância
E a santa ignorância
Levavam pra sepultura.
Nessa vida de amargura
Com o pobre endividado
Ralando feito jumento
Ou feito boi no arado
O povo vivia sem gosto
E ainda pagando imposto
Pra um bando de safados.
Já que tá tudo explicado
Ao causo vamos voltar
Pois o sumiço dos livros
Ninguém sabia explicar
E ninguém compreendia
Como que um livro sumia
Ali, naquele lugar.
Começaram a procurar
Uma pista que indicasse
O paradeiro dos livros
E qualquer um que pegasse
O tal maldito ladrão
Podia dar voz de prisão
E ao delegado levasse.
Como se isso não bastasse
A quem pegasse o ladrão
Seria dado uma recompensa
De um alqueire de feijão
Um costal de rapadura
Um burro com ferradura
E mais cem contos na mão.
Em todo aquele sertão
A notícia se espalhou
Que quem pegasse o cabra
Podia levar ao "Doutor"
Que seria recompensado
Pelo povo respeitado
Como um grande benfeitor.
Logo o povo começou
A caçar no matagal
Uma pista do ladrão
E veio a rádio local
Para cobrir o evento
Do grande acontecimento
Até então sem igual.
Até mesmo no jornal
A notícia já corria
E ganhar o grande prêmio
Todo mundo já queria
Quem quer que fosse passando
Já tinha alguém vigiando
Pra ver o que o outro fazia.
A partir daquele dia
Começou a confusão
Com vigia pra todo lado
Da serra até o sertão
Do interior à cidade
Acabou a privacidade
Todos queriam o ladrão.
Qualquer embrulho na mão
Era logo revistado
Por quem estivesse perto
E o rebú tava formado
Foi grande o constrangimento
E muito mais duzentos
Num dia só foram intimados.
Logo viu o delegado
Que aquilo era anormal
A confusão tava grande
Gente saindo no pau
E a coisa estava feia
Já tinha dado até cadeia
“Constrangimento ilegal”.
Combinou com o pessoal
Para pegarem o ladrão
Mas que respeitassem os outros
E evitassem confusão
Como vinha acontecendo
Era até constrangimento
Ferindo a Constituição.
Nos festejos de São João
Chegou um intelectual
Para curtir as novenas
Chegando da capital
Quando soube do ladrão
Cheio de empolgação
Disse: “Isso é muito legal!”
Achou sensacional
A história do ladrão
Por saber que a leitura
Se espalhou pelo sertão
Pois naquela terra dura
Vingou a literatura
Como se vinga feijão!
Com imensa satisfação
Foi falar ao delegado
Que perdoasse o ladrão
Case ele fosse apanhado
E quantos livros quisesse
Daria a ele, se tivesse
O seu nome revelado.
E saiu emocionado
Daquela delegacia
Jurando que aquele era
Na vida o seu melhor dia
Findou-se a perseguição
E toda a população
Encheu-se de alegria
Ninguém ali conhecia
Esse suposto ladrão
Que passou a ser herói
E que antes foi vilão
Todos acharam legal
Ter um intelectual
Famoso na região.
Zé Carneiro, o garanhão,
Um dia de madrugada
Viu um cabôco correndo
Pro mato, na disparada
Sumindo na escuridão
Levava um livro na mão
Já com uma página arrancada.
E naquela madrugada
Foi uma decepção profunda
Zé Carneiro, quando ia
“Se encontrar” com a Raimunda
Viu o Nonato agachado
Com um livro todo rasgado
Com as páginas limpando a bunda.
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João Félix
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07/10/2010
Dionisio-Acre para João Felix-Reriutaba
Quero inaugurar o Blog do “João Feliz”, com este
Cordel ( publicar na íntegra e na FORMA de Cordel),
de um autor anônimo desconhecido lá das bandas do sertão do Ceará.
JOÂO
Ninguém se queixe da sorte que morada ela não tem,
Ás vezes pode baixar na casa de um “João“ ninguém.
Afugentando a miséria deixando a estrela do bem.
Era um casal pobrezinho, que morava numa “Aldeia”,
Do qual nasceu um filhinho “feio” com o papásseis.
Trouxe a sorte de ser Poeta respeitando a casa alheia.
Era tão pobre essa gente que não achava padrinho,
- Pra dá o santo batismo ao seu amado - filhinho.
Foi o jeito oferecê-lo ao amigo - seu vizinho...
“JOÂO” foi crescendo e já era um cabra forte,
Falou pra seus pais que iria em busca da sorte.
Montado no seu “Blog” não queria melhor transporte.
Procurou buscar seu espaço, lá no Rio de Janeiro,
Escrevendo Contos e Prosas pode até ganhar dinheiro.
Hoje, no Reriutaba.com, escreve pro mundo inteiro!
Vá em frente grande João Felix – mesmo sendo um aprendiz...
Eudes, tem dado” chances” prá todos escrever no Giz.
O site está “aberto” só não escreveu ainda, quem não “Quiz”!!!
"Nasce mais uma oportunidade: O BLOG do
JOÃO FELIZ"
Ximenes
0 7.10.10
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06/10/2010
Sonhos desfeitos
“Não há nada mais forte do que um pensamento cujo momento chegou”.
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O sol ainda nem raiara e
Pedrinho já saltava da rede. Dispensou a lamparina e tateou no escuro até
a porta da cozinha - que dava para o quintal - puxou a tramela da porta e
olhou o céu ainda estrelado. O Cruzeiro do Sul piscava suavemente enquanto
a estrela d'alva, cintilante, descia no nascente. A brisa soprou o seu
rosto com o doce aroma da cana-de-açúcar; a lembrança da mãe veio com o
sussurro do vento. O engenho era o pedacinho de céu do qual sua mãe muito
falava (e agora ele já sabia) - a casa-grande, a moagem da cana, os
meninos provando a garapa, a cachaça sendo preparada...
Muitos anos se passaram. De menino, virou homem; precisava descobrir o
mundo assim como descobrira o engenho. Esse mundão de Deus deve ser muito
bonito, cheio de novidades e maravilhas como fora a casa-grande quando
criança: muito que explorar, aprender e aproveitar. A cidade grande, a
Capital que Zequinha Germano sempre falava. O Sul... Sim, o Sul que o
esperava, cheio de sonhos e fantasias. O Sul que corre dinheiro farto,
mulheres bonitas... mais bonitas do que a negra Judite.
Uma estrela cadente correu no firmamento. Ele correu para o terreiro,
pegou um punhado de terra, amarrou na camisa e deu um nó antes que a
estrela caísse. Isso daria sorte. Fez um pedido.
De repente, a lembrança da mãe lhe trouxe saudades. Dois fios de lágrimas
lhe escorreram dos olhos. Mais uma vez ia partir para o desconhecido, mais
uma vez sem os conselhos da mãe. Mas o Sul deve ser muito bom; sim, é; o
filho de um cortador de cana falou isso ano passado, quando veio a
passeio. Roupas e sapatos novos, gastando dinheiro, bebendo cerveja...
Alegrou-se novamente. Olhou o horizonte. O sol vinha raiando. As galinhas
já desciam do poleiro e os trabalhadores do engenho já estavam chegando. A
hora de viajar era chegada. A cabeça rodou. A mãe caída ao chão, o médico,
as pessoas falando... Tio Joaquim chegou e esses pensamentos foram embora.
Sentiu um aperto no peito, quis chorar. Não há nada mais forte do que um
pensamento cujo momento chegou.
Mulheres passavam às gaitadas no caminho do açude. O açude onde aprendera
a nadar, a dar cangapés com os primos, a passar as mãos - por debaixo da
água - nas pernas das cabrochas...
Despediu-se de tia Marina, do avô, dos primos e de mais algumas pessoas
que vieram ver sua partida. Amigos e parentes lhe desejavam boa sorte.
Recomendações foram feitas por todos.
A rodoviária. O ônibus que lhe trouxera para um novo mundo que se abrira
quando criança; o mesmo que lhe levará para um mundo completamente
diferente de tudo que vira antes. Uma pontada de alegria lhe espetara o
peito. A cidade grande. O Sul.
O gigante de aço soprava fumaça preta, e um apito ensurdecedor anunciava a
partida. Tio Joaquim acenava com seu chapéu que ia ficando cada vez mais
distante; as árvores corriam apressadamente. Seus olhos pesaram e ele
dormiu. Dormiu com o sonho de quem busca o desconhecido, a aventura, a
quimera.
Enfim, O Rio. Seus olhos buscam todos os lugares ao mesmo tempo. Carros,
ônibus, pessoas passando apressadamente, correndo, gritando. Ninguém se
cumprimentava, nem ao menos dava um "bom-dia". Gente diferente,
mal-educada! Meninos de rua descalços, sem camisas, pedindo, furtando,
correndo; meninos com vidros na mão, cheirando alguma coisa. Maneiras
diferentes de brincar (ou de viver). Prédios enormes substituíam as
mangueiras, as bananeiras, o canavial. O aroma da cana-de-açúcar fora
trocado pelo cheiro de gases e fumaça que saiam dos carros. Uma sensação
de medo do desconhecido palpitou no seu peito. Lembrou de casa.
Um amigo o esperava. Um abraço fraterno, enfim. Em sua nova morada as
novidades foram sendo contadas aos poucos. O engenho, o açude, as
meninas... O cansaço bateu, cochilou.
Sua rede fora trocada pela cama. Dormira mal. Logo começaria seu novo
trabalho; sua tão desejada vida nova o aguardava com o novo nascer do sol,
que não mais era anunciado pelo canto dos passarinhos, mas pelo barulho de
carros e pessoas; sol este que não seria fácil de ver ao nascer, escondido
atrás dos prédios e construções.
O dia fora duro e puxado. Se tivesse estudado mais talvez pegasse um
trabalho melhor. "Estude, Pedrinho. Você não há de querer ficar burro
velho como seu tio Joaquim", dizia tia Marina. A velha tinha razão. Onde
estariam seus sonhos e fantasias do Rio de Janeiro, as maravilhas do Sul
que tanto ouvira falar? Cadê o dinheiro farto, o sonho dourado?
Tudo era diferente. Os hábitos, a comida, a música... Até sua fala era
diferente! A alegria ia sumindo a passos largos, sem olhar para trás.
Meses se passaram e continuava na mesma. A saudade batia a cada fim de
tarde e cada vez mais forte. Os banhos de açude, a negra Judite, as
histórias do Zequinha Germano... Quanta saudade!
O Sul não era tão fácil. Por que tantos deixam o Norte? A ilusão, a
maldita ilusão de comprar felicidade! Isso não se compra. Podemos ser
felizes com nossos pequenos sonhos sob o céu estrelado do engenho, nos
braços de uma negra Judite qualquer, respirando a brisa que traz o aroma
da cana-de-açúcar, ouvindo o canto dos galos-de-campina...
Era lá, no engenho, na casa-grande, que estava a felicidade; nos campos,
solto, vivo, alegre e livre feito o caipora fazendo suas danações. Não
carecia viver noutro lugar para ser feliz. Triste ilusão! O ônibus haveria
de voltar. E ele haveria de voltar.
Adormeceu e sonhou. Tio Joaquim de braços abertos, as gaitadas das
mulheres no caminho do açude, os moleques dando cangapés, a estrela d'alva
no
nascente, a negra Judite, seu pedacinho de céu...
Outra vez feliz.
João Felix
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06/10/2010
Entre o sagrado e o profano -
Parte I
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Lábios de garrafa. Era assim que a chamavam. Não sei nem nunca soube por
que a chamavam desse nome. Até tive vontade de saber,
mas há verdades que
é melhor não conhecermos, dessa forma não tiramos a magia que embeleza e
dá vida aos mistérios. É claro que devido à minha curiosidade quanto às
coisas mundanas, o que não é anormal por se tratar de um jovem recém-saído
da puberdade, passou por minha cabeça inúmeros pensamentos, dos mais tolos
e fúteis aos mais impuros e lascivos. Como tudo que há entre o profano e o
sagrado é um abismo de fogo no coração de um jovem seminarista, vi-me
distante da verdadeira razão pela qual chamavam Ana desse apelido. Talvez
um apelido de infância, pensei. Seus lábios talvez não fossem tão grossos
como imaginei; quem sabe frios... A verdade é que fiquei intrigado quando
ouvi, numa rodinha de rapazes mais velhos que eu, um comentário a esse
respeito.
À noite, quando os demônios alados da lascividade sobrevoam a mente humana
em busca de uma brecha e de lá se estabelecer, sozinho em meu quarto,
fiquei à vontade para imaginar o que isso significava. Depois de me
certificar de que minha porta estava trancada, tirei de
debaixo de meu
colchão algumas revistas e pus-me a procurar, ansiosamente, página após
página, o que isso queria dizer. Vezes e outras me pegava admirando
vorazmente as curvas perfeitas de belas mulheres, para logo depois dar de
cara com a sagrada imagem de Cristo crucificado e pagar uma penitência de
cento e cinquenta ave-marias. A culpa invadia meu coração e me queimava
por dentro, mas o fogo do desejo que leva os castos à perdição me consumia
e logo eu voltava a vasculhar livros impuros em busca de saciar novamente
a minha inevitável curiosidade.
Naquela noite, todas as minhas buscas foram improdutivas, mas me abriu um
largo caminho para a ousadia. Nem tudo mais em meu coração significava
pecado. Os grilhões que me prendiam ao meu mundo religioso estavam, aos
poucos, se desprendendo. Eu já não me sentia apenas um jovem seminarista
em busca da salvação eterna, mas um homem descobrindo as coisas terrenas,
belas e atraentes, apesar de sujas.
Mas o prazer compensava o sacrifício
de pagar penitência todas as noites antes de dormir. E aos poucos fui me
distanciando do meu reino celeste e mergulhando no perigoso e sedutor
mundo das trevas; só então entendi por que o conselho de “fugir da
tentação”. Agora era difícil voltar: Adão e Eva no paraíso, a tentação da
serpente, a maçã, a expulsão do Jardim do Éden. Uma vez o pecado cometido,
nada tinha mais volta.
Aquilo me consumia. Eu não podia deixar Deus e seguir o diabo. Jurei a mim
mesmo que esqueceria a tal Lábios de Garrafa e, para provar que cumpriria
a promessa, joguei no lixo minhas revistas, velhas companheiras das
solitárias noites no seminário. Confesso que fiquei angustiado ao ver
minhas cúmplices e donas de minhas fantasias seguirem rumo ao centro de
reciclagem, mas achei que era hora de reciclar também meu coração e dar
paz ao meu espírito. Diante de mim o Cristo crucificado sorriu. E fiquei
feliz.
Com esforço, meus dias voltaram ao normal. Meu espírito foi purificado. Eu
conseguia olhar na cara do Cristo à minha frente e até mesmo as minhas
noites eram tranquilas como o sono dos anjos. Voltei a ser o jovem
seminarista, casto e puro tal qual um querubim. O canto
gregoriano
alegrava minha alma e a hóstia sagrada descia em minha garganta sem o
menor dos rumores. Nenhum sentimento de culpa ou de pecado habitava meu
coração tão limpo quanto o coração de um recém-nascido. Sim, fora para
isso que nasci. Para o sacerdócio. Estava decidido a seguir meu caminho.
Nada me faria desviar nem para a direita, nem para a esquerda, mas deveria
seguir retamente no caminho do meio, onde as chances de errar são mínimas.
E, com sacrifício, assim o fiz. Dias se passaram, e em uma gélida noite de
chuva, meus pensamentos trouxeram de volta Ana Lábios de Garrafa para
debaixo de meus lençóis. O que havia naquela maldita mulher que teimava em
me tirar o sono e a me desviar do caminho? Logo eu, que nunca a tinha
visto! Que nunca sentira seus lábios, grossos ou frios, ou seja lá como
fosse! Que nem mesmo tinha algum dia ouvido a sua voz, nem sentido sua
pele macia em minha pele! Ah, como gostaria de tê-la comigo, só minha,
pelo menos por aquela noite. Largaria tudo! Abdicaria de meu lugar à
direita de Cristo. Abriria mão da eternidade no Paraíso por uma noite com
Ana, apenas uma noite. Ana, a fruta do conhecimento.
Ao amanhecer, antes de começar minhas obrigações, fui ao quarto de um dos
rapazes que fazia parte da roda de conversa. Um misto de curiosidade
e
medo me deixou apreensivo. E se ele se negasse a falar? Ficaria sabendo de
meu segredo. Recuei. Em seguida, algo mais forte me fez ir adiante. O joio
já estava misturado ao trigo no meu coração. Já havia pecado por
pensamentos, agora era a vez de pecar por atos. Meu paraíso já se
distanciara de mim. Bati na porta. Mais uma batida e ele respondeu:
— Quem, em nome de Deus, ou do Diabo, está me incomodando a esta hora?
— Agostinho, do quarto 25, em nome de Deus — respondi quase sussurrando.
— O que você quer a esta hora, seu infeliz? Não vê que ainda é muito cedo?
— Preciso urgentemente conversar com você. Por favor, abra a porta. Me
deixe entrar.
— Ainda é cedo, infeliz! Fui dormir às duas da madrugada. Volta mais
tarde.
— Não! — respondi quase desesperado — É urgente, abra a porta, por favor!
Ainda com a cara amarrotada, sinal de que realmente tinha ido dormir
tarde, meu amigo mandou que eu entrasse, me puxando pelo braço, mas que
fosse breve.
— Por que você veio aqui a esta hora da manhã, Agostinho? O que você quer?
— Ana... Quem é Ana Lábios de Garrafa? Por favor, não minta pra mim.
Um sorriso malicioso surgiu nos lábios de meu amigo. Ele colocou a mão em
meu ombro e me mandou entrar. Com a promessa de que nada confessaria, caso
fosse descoberto, sobre quem tinha dado as informações, e após jurar
beijando uma cruz, sentei-me ao lado dele para
ouvir como fazer para
percorrer os doces caminhos da perdição. Minha pele esquentava ao mesmo
tempo em que meu coração batia acelerado e meus pensamentos lascivos
brotavam aos milhares em minha mente. Sim, naquele mesmo dia eu conheceria
Ana; conheceria o pecado em carne e osso; conheceria o inferno depois, mas
antes passaria no Paraíso. Todo homem nasce condenado à perdição, e eu
tinha de aceitar este fato. Eu não seria o primeiro a pecar, nem o último.
Nasci com o pecado original, então resolvi dar continuidade a ele. Além do
mais, Deus sempre perdoa. Afinal, se não perdoar os pecadores, acabará
sozinho. Portanto, Carpie diem.
Após ficar sabendo de tudo, despedi-me de meu amigo com a promessa de que
ninguém deveria saber de nada. Que, se algo estourasse, eu deveria negar
até o fim. Tranquilizei-o dizendo que preferia ser Pedro a Judas. Ele
sorriu. E sai apressadamente em direção ao meu quarto planejando o
assassinato de minha alma: crime premeditado. E parti decidido a matar
minha sede de curiosidade, embora consciente de que não se pode servir a
dois senhores. Mesmo assim, eu tinha de fazer uma escolha. E o fiz.
Na noite seguinte, lá estava eu sentado a uma mesa num canto escuro da
boate aguardando a entrada de Ana Lábios de Garrafa.
A curiosidade é uma
ferida que se abre cada vez mais sempre que ela não é correspondida. E
dói, e arde, e queima. E assim precisamos
de um remédio para que essa
chaga seja curada de uma vez por todas. Pura decepção. Ela nunca sara.
Hoje está boa, mas, como um
herpes, estoura na próxima oportunidade em que
é atiçada. E novamente corremos desesperadamente em busca de uma nova – ou
antiga – solução. Cristo só nasceu uma vez, e ninguém quer ser
crucificado.
Bem, como dizia, lá estava eu aguardando o meu elixir. Até hoje não sei o
que me despertou a curiosidade maluca de querer saber o que aquela
expressão significava. Acho que foi apenas um subterfúgio para pôr em
prática a libidinagem que todo homem carrega consigo,
esse é o verdadeiro
motivo. Talvez eu tenha me interessado por Ana Lábios de Garrafa, ou
simplesmente tenha despertado o interesse pelo proibido. Ela era uma
dançarina de boate e prostituta, e eu, um seminarista dividido entre as
coisas sacras e mundanas. Apesar disso, a verdade me parecia mentira; e a
mentira me parecia verdade. São Tomé adoraria ter me conhecido, acho que
teríamos feito uma bela dupla que discutiria sobre tudo, enquanto
percorreríamos os velhos e empoeirados caminhos do Evangelho: certo ou
errado, questão de ótica.
Céu ou inferno, questão de fé. Santidade ou
pecado... Bem, eu estava ali para descobrir. Eu, um aprendiz de santo no
meio daquele mundo apodrecido feito um Gólgota, um Hades, um mundo de
hereges.
Como um meio de justificar a minha ida àquele lugar profano (a melhor
mentira é aquela que você consegue mentir a si próprio),
disse a mim mesmo
que, para que saibamos o que é certo ou errado, temos de ter uma
experiência com ambos (ledo engano). Como poderei distinguir o bem do mal?
Como poderei, em meu santo cargo de representante celestial, julgar,
condenar e absolver alguém se não
conheço os dois lados da moeda? Ana me
daria uma resposta. Seus lábios me dariam essa resposta.
Após o show, dirigi-me a ela discretamente e, com o coração dividido entre
a fruta do conhecimento e todas as outras frutas do Jardim, trai meus
conceitos por um pouco mais de trinta moedas. E, de corpo e alma,
mergulhei no repugnante e extraordinário mundo da lascívia.
Minhas crenças
foram drasticamente abaladas depois de conhecer Ana – e seus lábios –, e,
ao contrário de Adão, não fui expulso do Paraíso. Mas, ao beijar seus
lábios, Ana me fez jurar que eu jamais contaria por que “lábios de
garrafa”. E, enquanto escrevo esta história,
pergunto a mim mesmo se
escolhemos um caminho por alguma razão ou se a razão é o próprio caminho.
E guardo, a sete chaves,
o segredo que Ana me fez jurar, beijando seus
lábios, que jamais o revelaria a alguém. Pois há certas coisas na vida que
cabe a cada
homem descobrir por si mesmo.
Fim
João Felix
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